
A VIDA DO MARRETEIRO DA CPTM
“Bala de gengibre com mel por apenas R$1,00!”; “Fone de ouvido era R$10, mas, só aqui no shopping trem você paga R$5!”; “A barra de chocolate sai uma por R$5 e três por R$10”. Estes são alguns bordões que muitos paulistas estão acostumados a escutar quando entram nos vagões da CPTM. Não importa o horário. Pode ser às seis da manhã ou às nove da noite, os marreteiros, como são chamados, não perdem a oportunidade de vender seus produtos. Vivendo em um impasse entre sua forma de trabalho e o comércio irregular.
Fone de ouvido com microfone, balas e chicletes, pomadas para dores articulares, pipocas, salgadinhos, sorvetes, água, refrigerantes, utensílios de cozinha, capinha para rg, entre outras dezenas de produtos, das mais variadas finalidades, são encontrados no comércio ambulante de trens da região metropolitana de São Paulo.
Mas, engana-se quem pensa que esse trabalho é fácil. A rotina é pesada, em média, muitos passam mais de 8h nos vagões. A criatividade na hora da venda ajuda muito a alavancar os lucros. Tem que ter lábia. “Ei, você ai, sai do whatsapp, para nao perder a promoção”, exclama um ambulante antes de anunciar seu produto. E, é assim, através da criatividade que cada marreteiro descobre a melhor maneira para prender a atenção dos demais passageiros.
O Decreto nº 1832, de 4 de março de 1996, Art. 40, veda a comercialização de produtos nos vagões ou nas estações. Quando as pessoas não respeitam a lei, a CPTM, além de retirá-los da estação, confisca a mercadoria encontrada e apenas libera com a comprovação de que os produtos realmente sejam daquela pessoa. Porém os marreteiros afirmam que guardam as notas fiscais e andam com elas em seus bolsos, para que sempre que forem abordados, possam provar que a mercadoria foi comprada com o próprio dinheiro. Entretanto, isso não é suficiente. A mercadoria é retirada das mãos dos vendedores ambulantes antes mesmo deles exibirem as notas fiscais.
“Eles falam que vai pra prefeitura, mas, no papel que fazemos, o RM, não existe prefeitura. Existe um papel simples.”, afirma Janice Ramos, 38, com a voz de revolta ao ser questionada sobre o que acontece com os produtos após a apreensão. “Às vezes eles nem abordam a gente, eles voam que nem urubus em cima da bolsa”, complementa.
Com os olhos cheios d'água, José Ivan, compartilha um momento humilhante que viveu nos trilhos. Ele afirma que em uma tarde estava com a sua família na linha Safira. Tudo estava tranquilo, até que um dos seguranças o pegam pela mochila, exigindo que revelasse o que tinha com ele. O caso está em julgamento, aguardando as filmagens do momento em que José foi atacado.
Existem também no cotidiano as pessoas que ajudam os marreteiros a disfarçarem as vendas quando a segurança está se aproximando. Conhecido como “Mulas” são passageiros aleatórios que seguram, às vezes até escondem, as mercadorias dos ambulantes como se fossem deles e assim, nada seria encontrado quando os seguranças fossem tirar satisfação com os suspeitos. Uma boa estratégia para não perder os lucros, a mercadoria e muito menos ter que embolsar R$4,30 em outra uma tarifa do trem.
Jean Faria, 23, conta que fez oito meses que saiu da prisão e que o comércio ambulante nos trens da CPTM foi uma das formas de inserção a sociedade, de maneira digna. Ele diz que pelo fato de ter sido preso, não conseguiu oportunidades de trabalho, pelo próprio preconceito e o estigma por ser um ex-detento. Então, viu nesse tipo de comércio um recomeço.
“Para mim nao ficar duro e nao ficar sem dinheiro, eu decidi trabalhar no trem, que é a última opção de quem não tem um trabalho, né! É errado? Sim, mas nóis precisa pra pagar nosso aluguel, água, luz… Muitos guardas entende, mas, tem que fazer o trabalho deles...” pondera sobre o dualismo entre o ambulante e os agentes da CPTM.
Além disso, Jean comenta que com a nova gestão, realizada pelo governo João Doria, o comércio ambulante ficou mais difícil, porque além de ter se intensificado a fiscalização dos produtos, os guardas também se infiltram para tentar capturar os marreteiros, através de agentes a paisana.
Dados obtidos pela Lei de Acesso à informação revela que ocorreu um aumento de 57,6%, comparado com o primeiro semestre de 2018, de apreensões por agentes da CPTM, totalizando 13 mil retenções.
Antigamente, a cada quinzena os agentes ficavam à paisana nos vagões, porém a CPTM pediu reforços para a polícia militar que atuará nas estações em seus dias de folga. Tornando o dia a dia do Shopping Trem mais desafiador.